Papaoutai

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França (2013)
Direção: Raf Reyntjens /Coreografias: Marion Motin

Em todas as minhas tentativas e experiências de escrita crítica, nunca foi meu objeto de análise  um curta-metragem, quanto menos um curta-metragem musical. No caso em questão, trata-se do tipo definitivo de curta musical: um videoclipe.

O interesse que esse clipe me despertou foi inesperado pois se trata de um tipo de música que não costumo ouvir, feita por um artista que, até então, não conhecia, em um idioma que pouco compreendo. Mas quando o assisti pela primeira vez me vi com um gosto amargo ao seu final, não causado por decepção, mas por ter absorvido a emoção presente na estória que foi contada ali.

Como não conhecia o teor da letra, foi apenas o conteúdo visual o responsável por toda aquela transmissão de emoções. Enfim, não poderia deixar de escrever sobre ele.

O artista belga Stromae é um fenômeno nos países francófonos desde 2011, e ascendeu fortemente com o álbum Racine Carée, lançado em 2013. Mas tenho certeza de que os vídeos feitos para suas músicas foram cruciais para seu sucesso, tamanha é a criatividade e qualidade artística contidas neles.

O vídeo objeto desse texto é o da música Papaoutai (“Papai, onde está você?”, em tradução livre).

No vídeo, vemos uma pequena vila  onde mora um garoto que tenta, em vão, interagir com a imagem estática de seu pai. Em sua frustração, ele admira os pais e filhos que vê passando pela frente de sua casa.

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Logo nos primeiros segundos, já podemos constatar a perspicácia sarcástica da direção de arte, que montou a vila em tons pastéis e a iluminou com uma luz levemente dourada, remetendo à nostalgia de boas lembranças, que, claramente, não é o que o protagonista sentirá ao se lembrar das situações mostradas ali.

Alguns ângulos tortos ajudam a embalar o tom fabulesco da estória, que são complementados pelos figurinos exagerados dos personagens. Como qualquer videoclipe de música pop, ele é preenchido por diversas coreografias de dança, que, surpreendentemente, não estão ali para popularizar algum passo a ser seguido em alguma “balada”, mas sim para desenvolver a natureza dos seus personagens. Assim, vemos a mãe e filha que, parecidas fisicamente e com movimentos sincronizados, aparentam ser irmãs gêmeas, seguidas do entregador de jornal que literalmente “se desdobra” para criar e entreter seu filho.

O protagonista, por outro lado, executa seus passos sozinho, com movimentos rápidos e abruptos, demonstrando toda sua raiva para com seu pai, que se mantém estático diante de suas provocações. O ator mirim que lidera o vídeo também deve ser mencionado, pois mesmo com a pouca idade surpreende com seu talento de dançarino e ator, mostrando um semblante ao mesmo tempo revoltado, admirado e com a madureza aprendida na obrigação de viver quase como um órfão.

A falta da figura paterna é tal, que mesmo as dificuldades enfrentadas por alguns filhos lhe causam admiração (mais uma vez mostradas com total esmero pela direção de arte, que troca a luz dourada por outra vermelha, enfatizando a negatividade daquelas situações),Clip-Stromae-Papaoutai-640x344 como o garoto que precisa trabalhar até tarde da noite com seu pai, ou outro que se vê intimidado pelo pai bravo, que lhe dá uma bronca. Mas mesmo esses pais e filhos se mostram plenamente sintonizados pelos passos de dança sincronizados e complementares que executam, ilustrando o elemento que o protagonista tanto admira e que lhe carece.

Não sabemos se a figura paterna presente na casa do protagonista é uma imagem idealizada pelo garoto, a ponto de dar-lhe banho e alimenta-la todos os dias, ou a representação de um pai fisicamente presente, mas emocionalmente omisso. Mas isso não importa, pois o impacto é o mesmo em seu filho, que, se espelhando àquela imagem, ao final, acaba se rendendo à ela e se torna aquilo que viu todos os dias da sua vida: uma figura estática e ausente.

Veja abaixo o videoclipe da música Papoutai. Ele também está disponível no Youtube com legendas em português lusitano.

Paris, Te Amo

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“Paris, Te Amo” (2006), é uma colaboração de diversos diretores para mostrar sua visão de um bairro de Paris e também sobre a cidade. São, ao todo, 21 curtas-metragem dirigidos por cineastas diferentes, incluindo nomes consagrados como Joel/Ethan Cohen, Walter Salles e Gus Van Sant. Foi sucedido pelos sucessos menores “New York, Te Amo”(2009) e Rio, Te Amo(2013).

Ao que parece, cada diretor teve carta branca para montar seu filme, o que nos dá as marcas pessoais de cada um deles, fazendo com que o espectador mais experimentado possa identificar alguns deles mesmo sem ler seu nome nos créditos. Assim, o curta de Walter Salles trabalha na ironia social da moça pobre que deixa seu filho na creche para trabalhar cuidando do filho de outra pessoa, enquanto os irmãos Cohen brincam com o azar de um turista, que mesmo sendo quieto e pacato se mete em confusão apenas por estar no lugar errado, na hora errada. Aliado a isso, um “time dos sonhos” de atores jovens e veteranos nivelam a qualidade dos diretores presentes.

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O filme como um todo não é monotemático e os curtas são bastante variados passando pelo drama, comédia, fantasia e romance, claro. Esse aspecto age positiva e negativamente no filme. Positiva porque o filme consegue agradar a todos, mesmo que não completamente; negativa porque os impactos emocionais conflitantes, e em sequência (podemos ver uma comédia seguida de um drama) faz com que não consigamos mergulhar profundamente em nenhum curta, e não conseguimos sentir a estória de cada personagem tão intimamente quanto poderíamos.

Outro aspecto dúbio é o grau de liberdade conferido a cada diretor, que parece que teve como único requisito, rodar o filme dentro de Paris. Isso fez com que o filme não seja um mero cartão postal da cidade (como o fraco “Rio”, do brasileiro Carlos Saldanha, que parece ter sido feito por um turista). Por outro lado, as estórias têm pouco, ou nada a ver com a cidade ou com as características de cada bairro. Se elas não estivessem em um filme chamado “Paris, Te Amo”, provavelmente nem saberíamos que se passa lá. A exceção se faz ao curta “14eme Arrondisement”, que se trata de uma verdadeira declaração de amor pela cidade, e sabiamente conclui a projeção.

paris-je-t-aime-8Ao mesmo tempo – e irei soar totalmente clichê ao dizer isso – a cidade parece surtir algum efeito nos realizadores, pois o amor está presente até nos curtas mais improváveis, como o do já citado Gus Van Sant (que mostra um interesse romântico frustrado entre dois jovens), e até mesmo no do mestre do terror Wes Craven, que mesmo não deixando sua morbidade de lado (seu curta se passa no famoso cemitério Père-Lachaise) acaba se rendendo ao amor em crise do casal protagonista. E aí também podemos ver as diferentes visões românticas de cada diretor, com curtas que ora se mostram alegres, ora melancólicos, e até “non-sense”. Quer por um par conjugal, quer por um(a) filho(a), ou outro alvo.

Ao final, é muito difícil de gostar do filme por completo, que embora seja homogêneo na qualidade da direção, linguagem e atuações, é bastante heterogêneo em temática e peso dramático, mas quando terminamos de assisti-lo, é impossível não ficarmos com uma sensação de aconchego e otimismo. Pois mais do que nos lembrar que Paris é a cidade do amor, “Paris, te amo”, nos lembra que o amor está sempre presente em todos os lugares, por mais anônimo que ele possa se mostrar.

Abaixo deixo o link para um dos curtas que mais gostei. Mais um belo trabalho da ótima e melancólica Isabel Coixet.

Amor em Dobro

Nome Original: Twin Falls Idaho (EUA, 1999)
Direção e Roteiro: Michael Polish / Mark Polish
Elenco: Michael Polish, Mark Polish, Michele Hicks, Patrick Bauchau

Em 1988, o diretor canadense David Cronenberg fez um estudo de personagem brilhante em “Gêmeos – Mórbida Semelhança” (Dead Ringers), em que tratava da psique de dois irmãos gêmeos que dividiam todas as experiências da vida. Onze anos depois, os irmãos gêmeos na vida real Michael e Mark Polish, revisitam esse terreno, só que de forma mais ligada, trazendo a estória de dois gêmeos siameses e uma mulher que surge para mudar suas vidas e para ter sua vida mudada por eles. Só que enquanto o canadense fez um filme cerebral – que é sua marca registrada – os irmãos Polish trazem um tratamento delicado e emotivo sobre a vida de seus protagonistas.

Penny (Michele Hicks, em sua excelente estreia no cinema) é uma aspirante a modelo que, ao tentar a sorte na cidade grande, acaba se tornando prostituta. Ao receber um trabalho de seu cafetão, ela encontra os irmãos Falls (Michael e Mark Polish), gêmeos siameses que a contrataram para o dia do seu aniversário. Perplexa com a visão dos gêmeos, ela foge deixando para trás sua bolsa. Ao voltar, envergonhada, para busca-la, acaba conhecendo a natureza gentil de seus clientes rejeitados e passa a ajuda-los quando percebe que um deles está doente.

Ainda que o título original leve o nomes dos irmãos Falls, a verdadeira protagonista do filme é Penny. Vivendo em um universo oportunista e feio, ela tem uma visão fria e indiferente do mundo, mas ao se aproximar dos irmãos Blake e Francis, vê quão harmoniosa e solidária pode ser uma relação humana.

“Amor em Dobro” é um filme de poucos diálogos, que são sempre funcionais. Descobrimos a natureza de seus personagens através da fotografia e da direção de arte, o que por si só já torna esse filme obrigatório para qualquer fã de cinema. Mesmo com a câmera em perspectiva de narrador oculto – é a mais comum do cinema – ela retrata a visão subjetiva de Penny e dos irmãos Falls. Por ela podemos perceber a diferença na forma de ver o mundo e de encarar as pessoas. Penny é indiferente e desconfiada, e tenta manter uma distância segura de todos os que se aproximam dela. Em suas cenas, a fotografia ganha um tom azul, quase monocromático. Os quadros são mais abertos, fazendo com que ela fique distante da câmera e, automaticamente, do espectador. Já os irmãos Falls são gentis e atenciosos. Suas cenas tem cores vivas, sempre em tons sóbrios e fortes. Os quadros são mais fechados e eles ficam mais próximos à câmera.  Veja abaixo como a visão subjetiva é nítida, sendo expressa apenas pela fotografia do filme.

Quarto dos irmãos Falls, visto aos olhos de Penny, à esquerda; e o mesmo quarto, na cena seguinte, agora visto aos olhos dos Falls, à direita.

O primeiro contato entre Penny e os irmãos e o reencontro após a rejeição inicial. Repare na profundidade de campo da cena à esquerda, que dá a impressão de distância entre os personagens. Já na da direita, temos a perspectiva dos gêmeos, e eles estão bem mais próximos.

Após a aproximação entre eles, Penny se torna mais aberta e comunicativa. Temos a impressão que conhecer os irmãos Falls fez renascer nela a fé nas pessoas. Sua perspectiva ganha cores mais vivas e quentes.

A cena à esquerda é de pouco antes de Penny conhecer os irmãos. A cena à direita é logo após o primeiro contato.

Logo após o primeiro contato, entra em cena o médico Miles, que funciona como bússola moral do filme, e algumas de suas falas mostram a natureza de Penny e até mesmo desafios morais ao espectador, em especial no terceiro ato. Os roteiristas/diretores foram muito inteligentes quando estabeleceram as falas desse personagem, pois mesmo quando elas seriam expositivas – recurso de roteirista preguiçoso/diretor incompetente, também são funcionais. O momento em que ele descreve o impacto de Blake e Francis na psique de Penny, por exemplo, poderia ser mera exposição dos processos internos da personagem, mas ele acaba sendo também uma amostra da intimidade que o médico tem com ela, chegando ao ponto de entender como sua mente funciona.

O figurino de Blake e Francis também merece destaque. Usando sempre tons marrons, que demonstram a sobriedade dos dois, houve a preocupação de fazer com que usassem camisas e gravatas parecidas, mas com estampas diferentes, deixando claro ao espectador – de forma consciente ou não – de que apesar de serem unidos, eles não partilham da mesma personalidade. E a personalidade deles é outro ponto interessantíssimo e essencial para que acreditemos na existência daquelas pessoas. Blake é mais amável e ingênuo com as pessoas, mas também é completamente lúcido quanto à sua condição e a de seu irmão, mantendo constantemente um ar melancólico, que é enaltecido pela discreta trilha sonora de Stuart Matthewman. Já Francis é desconfiado e recluso, mas também bastante otimista. Esses contrastes tornam os irmãos Falls personagens tridimensionais e realistas. A diferença entre eles se torna rica principalmente pelo belo trabalho de composição de personagem de Michael e Mark Polish.

Repare nas estampas de suas camisas e gravatas e nas expressões de ambos.

Mas mesmo sendo um tratado sobre o íntimo de seus personagens, o filme não ignora o sofrimento que os irmãos sofrem por sua condição. Ainda que ele seja posto de lado na maior parte da projeção, há uma única cena que ilustra a visão animalesca com a qual a sociedade os vê, e que é suficiente para que entendamos que aquilo não é momentâneo, mas uma constante em suas vidas. Eles são como animais em um zoológico.

Já Penny é uma personagem que vai sendo desconstruída com o filme. Se a mudança de comportamento da moça pode soar abrupta para alguns, o filme resolve isso durante o segundo ato, em especial quando conhecemos o apartamento onde mora. Todo em tons vermelhos e com objetos delicados e femininos, seu lar deixa claro que ela não tem uma natureza fria, mas que a vida na cidade a tornou assim. Sua natureza é cheia de paixão e alegria, características que estavam adormecidas e foram acordadas pelos Falls. Porém, sua psique é frágil, e o distanciamento dos gêmeos que ocorre no fim de segundo ato faz com que ela instantaneamente volte ao seu estado anterior.

Apartamento de Penny.

O terceiro ato é o único que realmente é dedicado a Blake e Francis, quando passamos a ter contato mais íntimo com eles, e vemos que apesar de toda a sua cumplicidade, a relação entre eles não é totalmente harmoniosa, mas cheia de pequenos conflitos como as de quaisquer irmãos. Esse ato também funciona como um confronto com o espectador, e faz com que pensemos se a compaixão que passamos a sentir pelos irmãos Falls é altruísta ou apenas uma empatia superficial causada pela manipulação da câmera. Miles, o médico, novamente tem a função de bússola moral (Alguém já perguntou como ELES se sentem sobre sua própria situação?). Só que enquanto o alvo do primeiro ato era Penny, no terceiro ato o alvo somos nós.

Apesar de todos os méritos do filme, ele tem suas falhas. A mãe dos irmãos Falls sofre de uma angústia semelhante à de Penny, e mesmo após uma conversa direta entre as duas, a moça não parece ter sido afetada pelas confissões da mãe, o que não condiz com a fragilidade de sua psique. Há certos simbolismos primários que poderiam ser descartados e a narração em off na última cena do filme é expositiva e desnecessária. Mas tais defeitos são menores perto de todas as suas qualidades, e em parte me incomodam por mero preciosismo meu.

“Amor em Dobro” é um conto sensível e delicado, não sobre pessoas que sofrem de uma anomalia, mas sobre irmãos que sofrem pela cumplicidade que têm um pelo outro e sobre o impacto que mesmo um breve encontro pode causar nas pessoas mais comuns. Afinal, como mostra a cena da festa à fantasia, somos todos aberrações no final das contas.